Cristiano Reis.


Um

Aprendi que os humanos não são confiáveis. Eles, como os demônios, mentem, fingem afeto e manipulam, sempre por um propósito: ajudar, conquistar, destruir ou trapacear a própria morte. Não necessariamente nessa ordem.
Assim foi o início de um destino arquitetado para enganar um arquidemônio poderoso. Assim foi o começo do plano da minha salvação, sem mesmo saber o que eu era...
De repente, vejo-me dentro de um banheiro público. Onde, eu não fazia ideia. O ar lá dentro era pesado e fétido. O cesto de lixo estava atulhado de pedaços rasgados de jornal, obviamente usados na ausência do papel adequado. Ao lado ficava o vaso sanitário de aparência imunda, suspeitei que logo ele começasse a transbordar algo indescritível. Na verdade, não é bom nem comentar. O piso era forrado com papelão e estava muito sujo, repleto de marcas molhadas de pisadas. Eu estava distante de tudo aquilo, concentrado na figura incógnita me fitando do espelho. O som metálico do gotejo da torneira, na cerâmica da pia, fundia-se com as feições familiares a minha frente, mostrando apenas vestígios do garoto tímido que eu vagamente conhecia. No entanto, o homem de um metro e oitenta e cinco de altura, de ombros largos, que se ostentava naquele reflexo já não possuía mais os aspectos de “patinho feio” de quando entrara na faculdade. Os cabelos castanhos lhe caíam suavemente na testa, e os olhos verdes como as águas dos mares da Indonésia diziam-me que ele era eu, porém, algo mais se revelava naquele olhar malicioso, a promessa de ter o mundo aos meus pés... e mulheres... Muitas delas! Mulheres lindas servindo-me o tempo todo de topless e calcinhas minúsculas. Por um momento, permiti-me deleitar daquela suposta sensação de confiança e poder (Não que eu concordasse com a luxúria).
— Que isso, maluco, não olha por onde anda? – A voz do homem que entrou no banheiro parecia distante quando a escutei, mas ele já estava bem atrás de mim. – Graças a Deus te encontrei... – ele pareceu incomodado ao me ver daquele jeito, meio desnorteado. – Você... Me diz que não é o que estou pensando.
— Hã? – murmurei confuso, encarando-o com os olhos estreitos e as sobrancelhas franzidas. – Não sei do que você está falando amigo. Conheço você?
Ele deu um sorriso sem graça. Mas logo seu semblante voltou a ficar sério, com o mesmo ar sombrio de antes.
— Quem era aquele homem que estava aqui com você? Pela pressa que o idiota saiu, quase me pisoteando... O que ele lhe deu, Geisel?
Bem, eu não fazia mesmo ideia do que ele estava falando, mas ele sabia o meu nome. Como, eu não sei. Seus cabelos eram avermelhados e desciam desajeitados até a altura do maxilar, e vestia uma roupa esquisita que me fez lembrar Severo Snape[1], com exceção dos olhos dele serem verdes, e da faixa... Uma beca, eu reconheci de repente aquelas vestes – toga preta com uma faixa azul na cintura – mas por que me pareceram tão familiar?
— Olha – eu disse – não sei de qual circo você fugiu, mas se me der licença, eu tenho que ir... – Onde mesmo?
Ele lançou-me um olhar abstruso. O capelo dançava por suas mãos nervosas.
— Cara, ou você está de brincadeira, ou está muito chapado – comentou. Ele pegou no meu braço. – Daniel, seu melhor amigo, prazer! Agora vamos...
— Daniel? – eu disse, desvencilhando-me com agressividade das mãos que me seguravam. Uma expressão de dúvida e desconfiança estampou seu rosto. A pele clara e cheia de pintas da face dele ruborizou de leve, como se uma pontada de medo o tivesse atingido a espinha, impedindo-lhe de respirar. Eu também não estava entendendo nada do que estava acontecendo comigo, mas a raiva que me comprimia o estômago agia por conta própria. Ele abriu a boca, parecia que estava prestes a falar qualquer coisa que viesse à mente, em sua própria defesa, mas desistiu quando meus olhos se desviaram dele, parando novamente no estranho do espelho. Subitamente eu me acalmei. – Onde eu estou?
Apesar da pergunta soar completamente estranha e sem sentido, Daniel relaxou os ombros, como se estivesse aliviado em poder soltar o ar novamente. Ele se preparou para dizer algo, mas sua boca se fechou novamente, devagar, observando-me com cautela antes de tornar a abri-la. Pensei que ouviria algo do tipo: “Como assim onde está? Você é retardado?”, mas ele simplesmente disse:
— Em um banheiro público, de um posto de gasolina...
Olhei em volta. É claro que eu estava em um banheiro, público, eu sabia disso, ele sabia que eu sabia, mas a sua resposta não foi exatamente uma resposta.
Estreitei os olhos e franzi uma das sobrancelhas – expressiva e exageradamente, formando sulcos profundos entre elas – fazendo uma pose de poderoso chefão para o espelho. Daniel revirou os olhos em notável enfado.
— Vamos, todos os formandos já estão na festa e só falta você – disse ele, guiando-me para fora do banheiro, sustentando-me a cada passo. Desta vez não reagi.
Apesar do um metro e sessenta de altura, Daniel possuía uma estrutura corporal consideravelmente forte, de tórax largo e braços definidos. Duas palavras me vieram à mente enquanto o analisava em busca de alguma pista que pudesse clarear aquela situação constrangedora: “baixinho entroncado”. Alguém já fizera esse comentário centenas de vezes, e pude jurar que era direcionado àquele rapaz que me ajudava. Mas quem era ele continuava indefinido, como todo o restante das minhas lembranças. Sério, olhando bem para ele, o que ele perdia em altura ganhava na força e essa agora vinha a calhar, pois me conduzia com facilidade pelo estacionamento, em busca do carro.
— Assim que a cerimônia terminou, você saiu apressado do auditório, mas eu o segui até o corredor que levava ao estacionamento. Conversamos um pouco e meu celular tocou. Sai para atender e quando voltei você havia desaparecido – comentou. – Sua mãe e eu ficamos preocupados. Achamos que... – Alguma coisa vibrou no bolso da sua calça. Ele pegou o aparelho e fez uma careta, o visor do celular se iluminava de forma ritmada. – Droga, falando no diabo... Oi, Dona Carmem. Sim, sim, o encontrei. Não. Fique tranquila que já estamos chegando.
Ele mentiu. Claro que mentiu. Não lembrar quem era ele não fazia de mim um completo imbecil, eu ainda podia ser capaz de ver o óbvio e, naquele momento, os olhos de Daniel diziam quem ele era e expor daquele jeito era algo que ele não faria.
— Seus pais não podem vê-lo assim – ele disse, equilibrando-me quando quase caí num passo em falso. – Mas não se preocupe, Geisel, é para isso que os amigos servem.
— Obrigado! – agradeci com sinceridade.
Daniel piscou para mim.
— Mariana vai saber o que fazer.
O carro de Daniel era confortável e espaçoso. Os bancos reclináveis possuíam um revestimento de couro preto que, em contraste com o painel bege, deixava o interior do Golf elegante.  As luzes dos postes passeavam diante dos meus olhos, através do vidro, enquanto minha mente vagava sem direção, em busca de qualquer lembrança. Quanto mais fundo eu me deixava avançar naquela distração, mais eu tinha a sensação de que entrara por vias de pensamentos proibidos, o que me causou demasiado desconforto. As luzes pareceram ficar mais intensas do que realmente eram, causando-me certa inquietação nas vistas, e uma angustia avassaladora, quase indescritível, como se o ar me fosse tomado. Tentei lembrar onde eu já havia visto ou sentido aquilo, mas foi em vão, embora parecesse estar ali, coberto apenas por um fino tecido de renda, querendo se revelar a mim.
O caminho até a festa pareceu longo. Em algum momento, escutei Daniel ligando para a garota que supostamente poderia me ajudar, ele mencionou que eu, ou houvesse ingerido algum tipo de droga altamente alucinógena, ou teria batido com a cabeça, mas que fora a amnésia, fisicamente eu parecia bem. Cogitou-se a hipótese de que a data em questão, correlacionada ao evento de três anos atrás, o qual eu não fazia ideia do que se tratava, pudesse ser a responsável pelo meu estado.
— Ela vai nos esperar no estacionamento – disse ele, esperançoso.
— O que aconteceu há três anos? – perguntei. – Ouvi você no celular.
— Já estamos quase chegando.
— Por favor – insisti.
Daniel suspirou.
— O seu irmão, Samuel... – ele hesitou. – Desculpa, Geisel. Não há outra forma de dizer. Ele foi encontrado morto, na manhã seguinte à festa da própria formatura.
Meu estomago embrulhou e uma dor latente apossou-se do meu corpo. Daniel percebeu o que estava prestes a ocorrer e encostou o carro. Abri a porta e me deparei com um campo aberto. Havíamos pegado a rodovia e eu nem percebera. Claro que sim, o local da festa, o Chopp’s Night Club, ficava na BR 116, há quase um quilometro da entrada principal de Novo Hamburgo, perto de onde estávamos, reconheci o local. Bom, pelo menos ali eu não ocorreria o risco de ser visto se portando de forma excêntrica. O céu estava estrelado, mas o vento era gélido, no entanto meu rosto queimava. O choque térmico me deixou ainda mais enjoado.
Senti meu coração parar varias vezes, o mundo deu uma guinada a minha volta, então cambaleei para longe do carro antes de cair de joelhos e colocar para fora aquele embrulho que se formara no meu estômago. Daniel observou a distância.
As informações que foram se formando na minha mente eram muitas. Coloquei-me em pé novamente, mas ainda continuava tonto e enjoado. De repente, automaticamente, eu estava levantando os braços para o céu, com os punhos cerrados, como se fosse socar algo invisível voando sobre minha cabeça. Soltei um grito agonizante que ecoou pelo campo a minha frente, em seguida caí novamente de joelhos. Minhas duas mãos agora estavam cobrindo meu rosto envolto de dor e fúria. Daniel se aproximou de mim e tocou no meu ombro, talvez para me ajudar a levantar, ou se certificar de que eu estava bem, mas, ao ver a cólera que tomava meus olhos, recuou alguns passos.
De joelhos me ouvi bufando como um touro bravo por entre as palmas de minhas mãos. A agitação mental que trespassava minha cabeça devia ser visivelmente expressada por um rosto que eu imaginava estar consternado, deformado. Era como se eu não fosse mais eu, não como no espelho do banheiro. Era diferente, como se outra pessoa estivesse em mim, querendo assumir o lugar que me pertencia por direito, mas ele possuía a mesma consciência que eu, ou parte dela.
Imagens dos rostos de pessoas que eu não conhecia surgiam nas minhas lembranças, mas as mesmas me eram arrancadas no segundo seguinte, como tumores removidos cirurgicamente, sem anestesia. Aquilo doía muito.
Vi a silhueta de uma mulher. Os cabelos dela eram longos e negros e balançavam ao vento, enquanto se afastava de mim, ou dele em mim, sei lá... O anel de noivado que eu trazia na palma da mão, naquela lembrança surreal, revelava o motivo de tanta tristeza. Meu coração estava partido. Ela disse não, pensei. Ela dissera não, mas quem era ela? Outra lembrança veio quando essa deixou de existir. Eu agora estava caído no chão, em um beco escuro e úmido, quatro indivíduos mal-encarados me chutavam enfurecidamente. Um deles, um garoto de aproximadamente doze anos de idade, uma criança apenas, carregava uma arma de pequeno calibre, semelhante a um winchester 22. Ele me apontou aquela arma...
De volta à realidade, de joelhos sobre a grama, retirei as mãos do rosto e as levei até os ouvidos. Daniel continuou imóvel, parecia impotente diante da visão que presenciava. Ele se apoiou no carro, parecia não mais possuir controle sobre as próprias pernas. Eu quis pedir ajuda, mas fui sugado novamente para dentro daquela lembrança.
O som estridente de dois tiros me deixou surdo, eu fora atingido na garganta e no peito e estava morrendo à míngua. Minha vida era sorvida devagar, e com muita dor. Mas alguém apareceu de repente para me salvar, ou pelo menos tentar. Era ela, a mesma mulher que há pouco me partira o coração, eu só não mais me lembrava de como ela o partira. Com o pouco de vida que ainda me restava, lutei esperançoso contra aquela paralisia. Meu coração voltou a bater e acelerou ainda mais. Carinho, amor, medo, ansiedade, todos esses sentimentos me invadiram, e eu só desejava uma coisa: ver o rosto daquela mulher que eu tanto amava. Quando quase consegui visualizá-la, a lembrança, assim como as anteriores, também se dissipou, dolorosamente, e não havia mais nada, nenhum resquício sequer para ser lembrado.
Meu corpo relaxou, e meus ombros caíram em rendição. Ergui a cabeça na direção de Daniel e um sorriso largo se espalhou pelo meu rosto.
— Daniel? – falei surpreso ao ver meu amigo.
— Eu. – Ele estava ainda mais branco do que de costume. Acho que ele nunca havia me visto daquele jeito. Bem, sim, uma vez, quando recebi a notícia de que meu irmão fora assassinado, eu surtei.
— O que aconteceu? – perguntei, reprimindo o sorriso. Uma lágrima me escapou pela face, então outra e mais outra. Em seguida, meus ombros estreitaram-se em soluços e mais lágrimas surgiam. – Eu não consigo fazer isso – gaguejei.
Comovido, meu amigo se aproximou e me abraçou.
—Você não precisava se isolar do mundo e sofrer sozinho, Geisel. Eu sou seu amigo, poxa. Poderia ter-lhe dado uma força, estado com você... Sei lá... É o que os amigos costumam fazer.
— Eu sei – eu disse envergonhado. – Agora eu me lembro de tudo.
— Geisel, eu só quero que saiba que também sinto a falta dele.
Meu peito apertou.
— Obrigado, você é um bom amigo.
— Então, vamos combinar, só hoje, bola pra frente. Vamos curtir esse momento. Cara, é a sua formatura, a nossa formatura, o começo de uma nova vida...e Samuel iria querer isso.
Confirmei. Ele me olhou dos pés a cabeça quando me ajudou a levantar.
— Olha só, vou ligar novamente para Mariana e pedir para ela enrolar seus pais enquanto vamos até a sua casa. Você está imundo, precisa trocar essas roupas.
Voltamos para o carro em silêncio.



[1] Professor de poções de Harry Potter, personagem de J. K. Rowling.



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